Tinha casa de madeira, de alvenaria, de palha, sem casa, desquitada, viúva, casada, amante, solteira,de todas as idades, na faixa dos 80, na faixa das 40, na faixa dos 20, na faixa dos 10, na faixa dos 5. Todas mulheres. Todas das mais diversas personalidades, menina faceira, "mariazinha e zefinha saló", cajazeiras, introvertidas, conservadora, cristã superticiosa. Tinha cabelos grisalhos, ruivas, desbotado, amarelo, preto.Era uma verdadeira concentração de estrogênio, que exalava por toda a casa, os ciclos se cruzavam e a tpm também. Era icônico ver todas reunidas falando mal dos homens da família, e das mulheres que não se enturmavam, ou dos antigos vizinhos. Fui criada numa casa cheia de pequenos cômodos, que lembravam um absorvente gigante, calorento, úmido, absorvendo suor, sangue e lágrimas. Lá em casa nunca teve essa de que é o homem que bota moral, a mulherada arrasava em ser Pinochet também, em ser firme, em engolir o choro e arregaçar as mangas, em trabalhar, costurar, pintar, escrever, desenhar e tantas outras atividades que me fogem a memória. Tinha a merenda, o lanche, o café, a abóbora com arroz, arroz com manga, feijão e farinha, cuscuz, cozidão com batata, Não dava nem tempo de se sentir sozinha. Tinha Amélia, Maria Bonita, zangada, barraqueira, humilde, arrogante. Um comboio de mulheres.
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Texto antigo ( de 2011 por aí) Você decide o final: ligue 0800
Naquele dia em que faria 1 ano e dois meses que eu me separei, ou seria emancipei? Cansada de tanta surra, física, moral e ética, do marido, da sociedade, das "amigas".Então decidi que minha reclusão auto-emanada naquele dia iria acabar.Comecei a bisbilhotar em minha mente tudo o que eu queria fazer e nunca tive coragem, nesse dia, o falso pudor social me denominaria de muitos termos perjorativos, mas eu, me chamaria apenas de mulher, eu queria me sentir assim.Comecei procurando em meu guarda-roupa , uma lingerie bem sensual e exótica, que seria mais fácil de retirar do que colocar.A calça mais justa e sexy que eu pudesse usar e respirar ao mesmo tempo.Um tomara-que-caia vermelho, contrastando com minha pele branca, cabelos naturais.Essa noite queria sentir que era eu mesma quem comandava e não uma maquiagem cobrindo metade do que eu sou, nada de acessórios, queria saber até onde ia meu poder.Coloquei o sapato mais alto que eu tinha.Comecei a andar pelas ruas escuras e ao mesmo tempo agitadas, andei até onde eu conseguia andar com aquele salto, e parei em um bar, onde tinha dezenas de homens que certamente estariam me despindo com os olhos assim que eu entrasse nesse bar.Mas enfim, parei alí tomei uma dose de uísque, e apostei mais uma dose de uísque na sinuca, com dois marmanjos.Arrebentei na sinuca e no rebolado ao som de Mart'nália, saí de lá intocada e desejada por todos daquele recinto.Vaguei mais um pouco, me desviava das provocações machistas da rua, enquanto eles assobiavam, isso soava como música para os meus ouvidos, eu estava sendo notada, não importa se eles queriam um minuto, uma hora, um segundo comigo, eu sabia que estava ali.Parei agora em uma boate, reparei que ali seria a oportunidade perfeita pra ser nenhuma culpa ou recriminação eu mostraria o quanto eu poderia ser uma mulher de verdade.Logo na entrada, mulher sem acompanhante não pagava, entrei e ao dar os primeiros passos já fui assediada, por dois rapazes, que atrevidamente olhavam pro meu decote, sem nenhum puder cheguei no moreno que me agradou, puxei-o e logo de cara dei um beijo quente nele, que certamente desceu quente nele também, e fui saindo sem dizer nada, ele ficou assustado com minha ação, tentou me puxar de novo, mas como a noite estava so começando e o local tinha muita gente, logo me perdi na multidão e na música,ao som do psy trance, comecei a me soltar, deixei a batida do som me levar, logo pedi uma tequila, dancei até meus pés pedirem socorro, e enquanto estava indo ao banheiro , encontrei um antigo amor, que logo me reconheceu, tentou puxar conversa, fui polida e logo tratei de pular fora, naquele dia eu so admitia novidades, o que era antigo eu deixava no meu múseu particular.Fui ao banheiro, fiz o que tinha de fazer, e ao sair já de cara encontro aqueles monumentos vistos so em revistas pornográficas, ele logo me puxou para conversar, vi que até a conversa era de profissional, decidi entrar no jogo fingindo não entender a dele, dancei mais um pouco com ele, então ele me chamou para sua casa, sem medo algum, eu o levei em direção ao lugar mais escuro da boate, o tirei do sério e de cena por alguns instantes, depois disso aceitei o convite, seguimos em direção da casa dele com uma garrafa de uísque na mão comprada na boate, chegando lá, encontro todos os tipos de adereços que uma mulher adoraria conhecer, ele colocou uma música estilo baladinha, mas acho que naquele momento não reconheceria nada que estivesse tocando, então ele foi me degustando pouco a pouco....
Não lembro porque não terminei, deve ter dado sono ou nem acreditei no final dessa balela rss
Jamais fomos modernos ( ou sobre coisas antigas e novas)
Como adoro pegar emprestado títulos de livros para minhas postagens, hoje escolhi o título do livro de Bruno Latour, que inclusive ainda não li, mas tenho uma base do que seja, a partir dessa frase "até mesmo aquele que se autodenomina pós-moderno, mal chegou a ser moderno" .
Parece haver na história uma guerra teórica acirrada entre aqueles que um dia de autodenominaram pós-modernos e os que leem sobre sobre o passado ad infinitum. E é mais ou menos lógico pensar que sempre nos pensaremos modernos em detrimento daqueles que já foram, e a modernidade não está apenas no fazer, mas também no pensar. Consideramos nossos pais e avós antiquados, com pensamentos retrógrados e um dia nossos filhos também pensarão isso de nós.
Nesse ínterim, ocorre também o inverso, pessoas que acreditam que o passado foi sempre melhor, que a musica, literatura, pessoas, sentimentos morais e éticos eram melhores em épocas anteriores, quando na verdade esse saudosismo só parece um pensamento carquético e tomado de síndrome de Peter Pan. Essa explosão juvenil de virilidade e ao mesmo tempo de que sua moral é melhor do que nos tempos atuais no meu ponto de vista é um saco. Ficar discutindo em mesa de bar porque o vinil era bom e exigia mais esforço físico e mental pra achá-lo e a "garotada" de hoje em dia não dá valor porque consegue facilmente na internet. Meu amigo, aceite. A "modernidade" taí pra facilitar, se você sofreu em sua nobre juventude pra conhecer a cultura que você julga ser a melhor.
A próposito, nós estamos fritos nessa linha tênue entre essa saudade do passado e ainda achar que somos modernos.
Vá escutar um rock rural e matar a saudade de quando o capitalismo era so a menina dos olhos do Brasil
Nós que nos amamos tanto
Algumas pessoas já me perguntaram como está sendo a experiência de ser mãe, ou como é maravilhoso, ou pra dizer que eu iria pagar meus pecados, saber o que é bom pra "tosse" (eu ia ter um filho ou conhecer o Osama Bin Laden?!). Pois bem, estou aqui pra falar tudo o veio a mim antes do daquilo que as pessoas chamam de dádiva: ser mãe. E se pra você, esse é um tema sonolento, já pode parar de ler.
1. Sobre ser mulher: pra falar de gravidez, primeiro é preciso falar o que é ser mulher em uma sociedade que prega que todas elas devem casar e procriar feito coelho e que as mulheres já nasceram destinadas somente a isto, Ledo engano, embora a reprodução seja natural entre os seres vivos, nem todas as mulheres sonham em casar e ter filhos. As que declaram não querer casar ou ser mãe são apedrejadas mentalmente (e em alguns casos fisicamente mesmo). O fato da mulher estar preparada biologicamente para ter filhos não significa que ela esteja preparada psicologicamente para isso. Felizmente, hoje em dia existem ainda muitas opções, responsabilidades e vontades antes de ter um filho e a mudança desses planos acarreta sérias mudanças psiquícas nas mulheres que, querendo ou não, é sempre a mais responsavél pela criança.
2. Sobre estar grávida: A concepção: era noite e estavamos chegando em casa... (vocês acham mesmo que eu ia contar isso? ha ha). Lembro como se fosse hoje o dia em que descobri que estava grávida (30/12/2013), foi um choque, chorei muito e o que posso dizer é que não foi de alegria (grupo das mãezonas com mimimi em 3,2,1), foi de um tremendo susto, um soco no estômago e entrei em estado de letargia por longos 3 meses enquanto sofria muito com enjôos intermináveis (isso quase acabou com minha pouca sanidade). Talvez o que poucos sabem é que gravidez não tem magia nenhuma (quer magia assista filmes da Disney), tem muita dor, muito incômodo, muito choro por nada (ou por tudo). Só caiu a ficha sobre as consequências que eu teria de enfrentar com essa nova vida após o primeiro trimestre quando eu voltei a vida real. Foi nesse período em que tive uma crise muito forte de "eu não vou conseguir, eu não sei cuidar nem de mim, como vou fazer mestrado, doutorado, Phd, produzir um filme independente, escrever um livro, mudar o mundo, ir pra Cuba, botar a culpa no PT?!". Passei mais longos 3 meses refletindo sobre essas mudanças, achando que o mundo havia acabado pra mim, que jamais poderia realizar meus sonhos (os mais mesquinhos possíveis). Fui ter paz de espírito apenas no último trimestre quando aprendi a remanejar minha vida, redescobri a vida, comecei a fazer planos à 3.
3. Sobre o nascimento e os dias que se seguem: O nascimento foi outra situação que não foi tão mágico assim (foi emocionante, mas não nessa magia que todos pensam). Primeiro porque eu estava extremamente cansada de ajeitar os últimos detalhes, segundo pelo medo da cirurgia (de não sobreviver, de esquecerem um bisturi dentro de mim, de roubarem meus orgãos pra vender no mercado afro [drama queen]). Quando vi George a primeira vez eu quase chorei, parecia que ainda não acreditava que ia ser mãe, so acreditei quando vi aquele rostinho magrinho e indefeso com o choro "miúdo" e ralo que logo cessou. Quando saí da sala de cirurgia me sentia tão estranha, sabendo que haveria uma nova jornada em que meu próprio umbigo não seria mais o foco, nem meu nem de ninguém. Durante as duas primeiras semanas em casa o estranhamento foi grande, afinal era uma pessoa diferente em minha casa, dormindo em meu quarto convivendo e dependendo de mim pra tudo. Eu não sabia quem estava mais assustado, se George que não conseguia mamar direito, ou se eu que tinha medo de não saber me virar. Acontece que, ao me tornar íntima do meu filho, o medo foi passando, o relacionamento foi sendo construído passo a passo tal qual um casamento, em que um vai aprendendo com o outro. Não é esse "NASCEU , AMOU". Pelo menos não comigo, cada dia era um passo mais próximo desse amor de mãe que todos diziam que eu so entenderia no dia em que me tornar-se mãe, pois bem, tornei-me mãe e posso afirmar agora com todas as palavras: É MARAVILHOSO! é indescritível ver e acompanhar cada aprendizado, curar cada ferida, ninar cada noite, cansar e amar mais ainda quando dorme (sim, o melhor de ser mãe é ver seu filho dormir e sussurrar UFA. Só as mães são felizes!!!!
O grande mentecapto (ou sobre as múltiplas facetas de ser Eu, eu mesma e Ivila)
Tem gente que julga, a grosso modo, que chegaremos à vida adulta sem muitas alterações no modo de pensar e ver a vida, como se fossêmos papeis limpos saídos da resma, como se a originalidade fosse uma obrigação que nos mantém longe da vulgaridade e banalidade que a vida tem se tornado. Olhando em retrospecto, vejo que muitos tiveram expectativas em mim, e de quando em vez vociferam que eu mudei, para mim soa como um elogio, penso eu, de que teria valido tantos anos de leituras, de músicas, de horas nos teatros, de horas de afinco conversando e socializando idéias com amigos e a família. É banal, meu caro. Agora eu entendo o que quer dizer pés no chão, não apenas por ter me tornado mãe, não apenas por casar, não apenas por me preocupar com coisas que realmente pesam e preocupam, mais do que o noticiário na TV, ou a prova da semana que vem , e, que as vezes se equipara a síndrome de Atlas. Mas não somos mais os mesmos, não devemos ser, não devemos jogar fora tudo o que conseguimos compreender, admiramos e deixamos de admirar, é crescimento. As vezes regresso também. Todo esse saudosismo de que “no meu tempo era melhor”, tudo isso é equívoco, temos de seguir em frente. A verdade é que, historicamente, estamos fadados a avanços e retrocessos, vivências que jamais poderão ser apagadas. Também é verdade que alguns vão com raiva da gente, outros vão com angústia, outros com saudades, outros mortos, outros simplesmente desaparecem no tempo e algumas vezes a vida nos permite que lembremo-nos remotamente de sua existência, só pra dar aquele sorriso no rosto e pensar que foi legal um dia, mas que hoje a vida anda a passos largos. Não devemos ceder ao instinto de rasgar nossas vestes e sair procurando a presa que não consegue escapar de nossas palavras, de nossos gestos mais brutais e vingativos. Ainda não somos civilizados, nem modernos, nem evoluídos. Apenas somos e estamos.
(Ps1.:Usando indiscriminadamente o título do livro do Fernando Sabino como título da minha postagem)
(Ps2.: Crétidos da imagem: Desenho de Thiago Ramos de França e foto de Denis Araújo)
sexta-feira, 4 de abril de 2014
O sutiã amarelado pendurado na maçaneta da porta, os seios fatigados da prisão diária caem se deliciando furtivamente do vento seco, deixando os mamilos enrugados, misturados ao suor que escorre lentamente entre abertura que separa os dois fartos seios. Nada parece mais saboroso que língua e mamilo juntos, entretanto hoje ela não quer. Hoje ela quer se masturbar como se fosse a única a entender a beleza daquele momento, hoje ela não quer um intruso lhe direcionando quando e como gozar. Hoje ela quer abrir as pernas pra si mesma e dizer o quanto se deseja, quer meter-lhe os próprios dedos, cada um lentamente, ou todos os cinco, ou decidir em que quantidade ou intensidade vai expor a si mesmo aos gritos esganiçados de prazer.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Amor à infância.
Ela choramingava sentindo uma dor fina, enquanto ele levantava o zíper da calça e a colocava de volta no banco do carona. E, sussurrando baixinho, ordenou:
- Não conte a ninguém, será um segredo só nosso. E fez uma mágica com uma moeda para acalmar a sobrinha de cinco anos.
Era cedo da noite quando o tio foi buscá-la em casa. Ela esperneava na casa da vizinha, sua mãe estava ausente fazendo os preparativos fúnebres do seu marido infartado.
Ele a colocou em seu uno mille, no caminho parou em frente a casa de sua namorada, bateu mas ninguém atendeu. Chamou-a de puta, entrou no carro, olhou sorrateiramente para as finas, delicadas e cândidas pernas por baixo das curtas saias de criança florescendo no banco ao lado e perguntou
- Você quer aprender a dirigir?
- Sim. Respondeu timidamente a menina.
Ele a colocou em seu colo, passando a mão direita por dentro da saia, a calcinha fina que obstruia a passagem foi logo afastada, e, metendo o dedo em sua novíssima juventude, arrancou-lhe um ruído choroso. Arrancou-lhe também a tranquilidade da infância, a saúde dos pensamentos e um medo atávico das pessoas.
- Não conte a ninguém, será um segredo só nosso. E fez uma mágica com uma moeda para acalmar a sobrinha de cinco anos.
Era cedo da noite quando o tio foi buscá-la em casa. Ela esperneava na casa da vizinha, sua mãe estava ausente fazendo os preparativos fúnebres do seu marido infartado.
Ele a colocou em seu uno mille, no caminho parou em frente a casa de sua namorada, bateu mas ninguém atendeu. Chamou-a de puta, entrou no carro, olhou sorrateiramente para as finas, delicadas e cândidas pernas por baixo das curtas saias de criança florescendo no banco ao lado e perguntou
- Você quer aprender a dirigir?
- Sim. Respondeu timidamente a menina.
Ele a colocou em seu colo, passando a mão direita por dentro da saia, a calcinha fina que obstruia a passagem foi logo afastada, e, metendo o dedo em sua novíssima juventude, arrancou-lhe um ruído choroso. Arrancou-lhe também a tranquilidade da infância, a saúde dos pensamentos e um medo atávico das pessoas.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
In. verossímel
Que noite! O engasgo do choro.. Naquele
hospital com cheiro de feto, entramos no primeiro consultório vazio rasgando
desesperadamente as roupas um do outro para enfim meter e abocanhar qualquer orifício
que coubesse uma língua ou um dedo. Jorrava sangue do nariz, enquanto isso os
pacientes andavam tranquilamente pelos corredores ouvindo os gemidos que se fundiam
ao dos gatos embrenhados nos corredores. A madrugada crescia quando ele
empurrava vagarosamente, ficando-lhe cada vez mais forte com um fiozinho de dor
o pau que entrava e saia em ritmo de uma dança assimétrica. Ao locupletar de
sangue os corpos cavernosos enrijeciam e rosnavam querendo sair. Com um pálido
gemido, os gatos silenciaram, as pernas adormeceram e o leite que não alimenta
abortou a operação “povoar a terra”.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
O velho que nunca cochilava
Ele era o mais velho do asilo, fora deixado muito cedo lá. Aos 53 anos, seu único filho já o havia abandonado e prometeu que sempre o visitaria, o sempre durou apenas dois meses. Os cheques chegavam rigorosamente todo quinto dia útil de cada mês. Ele não sofria de insônia, simplesmente não dormia, nem sonhava. Enquanto todos dormiam, ele jogava animado e sozinho o seu truco, adorava a solidão, por isso não teve esposa. Achava o sono uma perca de tempo, a velhice lhe proporcionou a seleção de seus horários e suas próprias atividades individuais. Todos os dias no findar das tardes, jogava xadrez e sempre perdia, para se fazer de bom perdedor. Odiava as frases feitas de idosos que repetiam papagaiosamente que ja aprendera as lições da vida, que os jovens achavam-se imortais e que artrite e artrose eram as piores coisas da velhice. Não era ranzinza, não era mal humorado, apenas silencioso. Não guardava rancor do filho, afinal foi fruto de uma noite de bebedeiras e de uma ejaculação precoce.Achava que Deus estava adiando sua morte, pois esperava ansiosamente morrer em sua cadeira de balanço com a maciez e tranquilidade de uma sesta após o almoço.
O jovem fanático
Nada lhe interessava, nem mesmo o sexo. Odiava música, qualquer tipo. Na verdade não suportava o barulho, enquadrava os seres humanos como incompletos, como se a evolução não tivesse terminada e a música como uma tentativa frustrada de auto-afirmação humana. Pensava na incompletude das coisas. Odiava os livros, pois temia sentir saudades dos personagens e odiava a saudade também. Nunca havia beijado, gozava só em suas poluções noturnas, e também não gostava de acordar sujo. Estudou só até a quinta-série pois odiava ter de decorar as coisas, odiava ter amizades porque não gostava de encontros que durassem mais de 5 minutos. Odiava pensar na morte, pois odiava pensar em sua mãe chorando por ele. Pensava em ir embora para as montanhas e viver como um ermitão, mas odiava rótulos. Só havia uma coisa de que gostava, do seu próprio umbigo, lhe parecia tão diferente de tudo que conhecia, todas as dúvidas se dissiparam no dia que percebeu a aura envolta dele, era impreciso e inchado, não cabia em si. Era só disso que ele precisava, de seu próprio umbigo.
Filmes que levam a outros filmes
Lembro da emoção ao assistir Meia-noite em Paris de Wood Allen, é um lindo filme com clássicos artistas da tão aclamada Europa, com um rico legado de artes plásticas, literatura, filmes, entre outros. Um clássico atrás do outro, exaltando a beleza de cada época com um saudosismo extremo que até embarca o ator principal em uma impressionante viagem à época de cada um dos artistas apresentados. Agora a realidade, os filmes de Wood Allen entre outros cineastas apresentam uma Europa exuberante, rica, fiel a sua cultura e extremamente ligada aos valores eurocêntricos. E as devastações que ocorreram? Partir da realidade dos artistas ou partir da realidade de "normais" que sofreram com as duas Grandes Guerras (fora as outras guerras consideradas 'menores'). São bons filmes para chafurdar em uma saudade intelectual(lóide), mas temos ótimos filmes pra quem gosta de um choque de realidade não menos intelectual (pra quem insiste nesse discurso) como Ladrões de Bicicletas de Vittorio de Sica, que retrata as devastações na Itália pós-guerra, Asas do Desejo de Win Wenders e as inquietações e frustrações em Berlim. Canção da Primavera, que também representa a vida pós-guerra na Iugoslávia e a falência dos regimes socialistas. É obvio que cada cineasta traz em seus filmes as representações que bem entender e é tudo uma questão de gosto.Agora o feedback negativo: o próprio Wood Allen remete também ao filme O declínio do Império Americano de Denys Arcand que faz uma crítica muito engraçada a respeito de quase tudo, desde os diálogos intelectuais psicanalistas de um ciclo vicioso pan-sexualista freudiano no qual a maioria dos acadêmicos da área de humanas e sociais se prendem até os rituais sexuais da raça humana para barganhar o coito tendo de se valer de todo pedantismo de leituras desconhecidas ou de filmes aclamados não-americanizados. É bom se deliciar com bons filmes, mas ninguém é obrigado a ter um choque orgasmático com um filme de Godard por exemplo, assisti Viver a vida e nem por isso tive um surto de inspiração estilo maio de 1968, talvez não tenha lido o suficiente sobre, mas tem filmes que você não precisa ler resenhas para entender. Inspirações, inspirações, inspirações. Apenas uma mentecapta falando de filmes.
O sono dos justos
Ele sempre acordava cedo todas as manhãs, não tomava café pois fazia mal, não consumia açúcar, não bebia, não fumava, sexo só com camisinha. Era o mais pontual da firma, nunca deixou de votar, assistia aos horários eleitorais, debatia sobre política, dominava a retórica como ninguém. Só tinha um defeito, escutava suas músicas prediletas no último volume e relutava quando indicavam o uso de fones de ouvido , considerava um insulto à sua liberdade de expressão. Foram dois tiros secos que ecoaram pelos apartamentos daquele prédio, o homem que gostava da música alta já não escutava nada mais. O autor dos disparos ria e vociferava: vai escutar música alta lá na casa do caralho. Logo após ele pensou que o silêncio lhe incomodava e desceu um tio certeiro em sua própria cabeça. Diagnosticaram o homicida-suicida como louco. Ele que era louco?
segunda-feira, 27 de maio de 2013
A eterna fase fálica
Ele amava festas, ficava eufórico quando seus amigos boêmios o convidava para orgias musicais. Era considerado o ébrio da festa, um perfeito bon vivant. Sua esposa sempre lhe cortava o tesão quando lhe dizia que era preciso ter regras, trabalhar e viver moderadamente. Ele dava com os ombros e saia para beber rigorosamente as 18:30. Certa tarde ele foi convidado para uma intrigante festa à fantasia em que não podia levar acompanhante, ele sabia que compraria briga com a mulher mas ela logo o perdoaria. Comprou uma fantasia de vagalume e encaixou uma lanterna entre a fantasia e a bunda. Saiu de casa escondido, colocou a fantasia em uma sacola, foi ao shopping e se trocou, chegando na festa começou a beber e dançar, lá pelas tantas da madrugada, já cansado resolveu sentar de uma só vez, e a lanterna alavancou-lhe uma socada no rabo que ele caiu no chão chorando de dor, suas pregas abriam e fechavam como se chorasse junto. O levaram para o pronto-socorro, lá teve de fazer uma micro-cirurgia para a retirada da lanterna, voltou para a casa envergonhado, não precisou nem pedir desculpas à esposa pois a desgraçada ria freneticamente. Foi notícia na cidade, passou até no jornal local, virou motivo de chacota, após meses ainda se ria do ocorrido. Em um domingo faltou energia e por ironia sua esposa logo achou uma lanterna, e pôs-se a rir sozinha, ele relutou mas riu também, e até pensou que há uma linha tênue entre a dor e o prazer.
(Baseado em uma historia contada no Programa do Ratinho há uns 10 anos)
1979
Era natal de 1979, ouvia-se nos rádios a comemoração da conquista da Lei de Anistia, ampla, geral e irrestrita. No auge dos seus 67 anos ele não entendia bem o que isso significava, mas falava-se bastante em liberdade, que agora as coisas seriam diferentes. Morava em uma cidade pequena, estudou até a quinta série e logo precisou trabalhar. Todos os dias pelas 6 horas da manhã, enrolava seu fumo e bebia uma xícara de café no quintal, ligava o rádio, escutava que o Brasil estava mudando e não entendia bem o que isso significaria para ele, na verdade só suportava escutar esse lenga-lenga pois esperava ansioso as músicas de Baby Consuelo e Angela Rô Rô. Não tinha esposa nem filhos, sempre achou as relações humanas enfadonhas, na verdade nem sabia o que era algo enfadonho, mas sentia, sentia não suportar mulheres por mais de um mês em sua casa. Uma vez, quando jovem namorou durante 15 dias uma mulata, mas ela queria morar junto, ter vários filhos e chamar de amor, e ele pensava: Mamãe sim me amava de verdade. Logo enjoava de todas, depois do sexo queria logo se vestir e ir embora, por isso preferia sua mão como companheira. Na noite de natal, as árvores cheias de pisca-pisca, as pessoas comprando e embrulhando presentes, e ele apenas preocupado com o que ia beber a noite. Nesse dia ele vestiu sua bermuda de sempre, foi até a farmácia e comprou um hidratante de calêndulas, passou no bar da esquina e comprou um litro de campari e voltou na mesma cadência. Sentou em sua cadeira de palha predileta, passou hidratante nas mãos e começou a bater punheta, e o rádio tocando 'amor, meu grande amor', a música era bonita, ele confessava, pensava nas mulheres que poderia ter conhecido, e nas noites perdidas caso tivesse casado, os pensamentos era intercalados entre os peitos da vizinha que se trocava com a janela aberta e toda a vizinhança conhecia o modelo do seu corpo. Tocando-se pela terceira vez ele cochila mansamente.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
A vingança
Após perceber em frente ao espelho que o supercílio direito estava cortado, murmurou: "ainda arranco-lhe os bagos". Ela não queria estar na pele dele. Disse: "amor to indo a feira, comprar aquela galinha caipira que você tanto gosta". Entrou no mercado popular da cidade e comprou três metros de corda, um milho e uma lata de óleo, teve de comprar a galinha caríssima, mas valeria a pena. Chegou em casa e ele falava ao telefone com uma de suas amantes e se despediu sem diminuir o tom de voz "tchau gostosa que a vadia voltou". Viu a galinha e insinuou uma semelhança, ela soltou um sorriso sem graça. Ele pegou uma latinha de cerveja e ficou deitado na cama assistindo enquanto esperava a janta, acabou cochilando na cama, ela dividiu a corda em duas e amarrou devagarzinho os pés e as mãos do esposo, mas antes tirou-lhe a cueca, esquentou o óleo na frigideira durante 15 minutos e quando ele para todos os lados espirrava, atirou-o em cima do pau, ele deu um grito estridente de dor, olhou para o seu fiel e viril escudeiro agora todo murcho e disse: "Vou te matar, sua puta louca, vou te esquartejar e te botar pros cachorros." Ela ria, e muito. Virou-lhe de bruços na cama, abriu seu cú com toda a força que lhe restava e enfiou a espiga de milho de uma só vez, que o fez sangrar e gemer alto. A galinha tão almejada, ela pegou o fel e o obrigou a engolir. Saiu do quarto e foi fazer a janta.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Te adorando pelo avesso...
As pernas estavam bambas. Ela apanhara muito, esganiçava quando ele puxava seus cabelos, os pontapés na barriga a deixou rôxa. Ela implorava várias vezes para deixá-la com vida, mesmo que apanhasse bastante, achava que ainda havia muito a viver, achava. Ele iniciou o ritual diário rasgando sua blusa, amassando seus peitos, mordendo, abria-lhe o zíper do short e finalmente metia-lhe o pau com tudo o que podia, com toda força. Obrigava-a engolir a porra e no final socava o seu rosto até ficar inchado, até sumir os olhos. Ela sempre saia aos trapos, até a esquina e voltava, não tinha pra onde ir. Abria a porta e pedia perdão.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Nem tão perto
Preciso te dizer, eu já sabia. Não precisa ser mestre em adivinhações. Alguém que mora na roça sabe quando vai chover, ela vai juntando os fatos e depois: CABRUMMM! Chove. Não precisei que alguém contasse, não precisei ver nada, eu já sabia. Do que você está falando? Cadê os travessões de nossa conversa? Espera, isso tá estranho. Tem como começar de novo? A pontuação está me confundindo toda. Não, eu estou escrevendo pra dentro. Só me escuta. Quando sonhas, se é que sonhas, você se solta, solta toda essa aparência de agrados e mentiras, aí dentro é tudo podre. Você não chora, você não goza, você não ri. Mas em seus sonhos você faz tudo isso junto. Como eu sei? Instinto. Não acredita em instinto? Então como você explica eu conhecer tanto de você. A gente não vive junto, não dividimos lenções mas eu sei até quando sua respiração tá mais forte. Me calar? Não, não adianta espernear, você não está lendo isso, você não precisa saber que eu sei, mas eu sei. Senta aí, não se levante antes que eu termine, cospe no prato que comeu, engole o gozo que saiu. Não sinta tanto nojo, de tua boca já saiu coisa bem pior, mas fuja, como um gato foge do banho, fuja petrificado de toda verdade que abala tua mente, não me venha com essa síndrome de Asperger, o que você tem é apenas tédio, cada dia mais blasé.
terça-feira, 16 de abril de 2013
quinta-feira, 11 de abril de 2013
O sopro da verdade
(Essa é para ler escutando These boots are made for walkin - Nancy Sinatra)
- Mete o dedo, mete o dedo!!!!! Só se ouvia os gritos:
- No olho, bem no olho que é pra cegar. E se via os puxões de cabelo, os pontapés com erros de mira.
- É a mãe! Sua va-ga-bun-daaaaa...
- Soc!pow!
Até finalmente se ouvir um estridente Ku klux klan. Não a "facção", mas o som da arma engatilhando e atirando, logo após tudo silencia. Aos poucos as pessoas vão se retirando, e apenas a autora do disparo dá um chute na cara para o grand finale e diz:
- A mãe não, meter a mãe no meio é sacanagem.
Não era sobre homem, não era sobre maquiagem, não era sobre moralidade, a discussão começou sobre o poder, a ascensão feminina, o exemplo da Dilma, o sequestro, a ficha suja, as armas. Até onde ia a liberdade feminina e a aprendiz de homicida solta a pérola:
- As mulheres lutaram tanto pelo poder que agora que conquistaram não sabem onde enfiar.
- Chauvinista, preciso te dar uma aula sobre a década de 1960. O que as mulheres tiveram de passar pra conseguir dar a opinião ao invés da buceta. Coco Chanel, Nancy Sinatra, Carol Hanisch e tantas outras que deram voz e ousaram em uma época totalmente dominada pelo machismo.
- Você fala isso mas apanha do marido.
- Apanho porque eu peço.
- E depois ainda fala vem falar de independência. Que mulher em sã consciência gosta de apanhar do marido?
- Aqueles que pedem, oras. E isso nada tem a ver com independência e direitos iguais, tem a ver com sexualidade, escolhas e fetiches. Freud Explica.
- Porra de Freud, cara mal comido.
- E o que você entende de psicanálise? Nada, você é uma mentecapta que nasceu com o polegar opositor por acaso.
E por aí continuou a briga até os confins do diálogo racional, quando a futura defunta abre o berreiro :
- E ser corna, tem a ver com liberdade sexual? Porque eu dormi com seu marido, agora vai dizer que não se importa? Que tem um relacionamento aberto e livre de preconceitos? Quero ver até onde seus paradigmas de mulher moderna vai.
E lá se vão todos os discursos apoiados em anos de estudos estratégicos sobre felicidade, relacionamento, terapia de casal, dissertações e teses. Quando a humanidade vem a tona, abre espaço para toda a ultraviolência latente e tudo o que se vê agora é uma roda para a briga das duas irmãs no barzinho do Zé Pinguço e só se ouve um único tiro fatal, justo na garganta. Há quem diga que eram inseparáveis, nunca haviam brigado por nada, tomavam até calcinha emprestada, agora não toma mais.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Picotes da madrugada
(Para ler escutando Ella
Fitzgerald)
Os dois conversavam de madrugada sob a mesma cama dividindo
o lençol e buscavam entrar em consenso sobre a efemeridade dos relacionamentos.Ela
lembrou vagamente do livro da Hilda Hilst que havia lido dias atrás, ele
lembrou do que leu no jornal e disse:
- Você
é de que?
- Eu sou pêssego
- Não! Digo, qual seu signo,
virgem? Peixes? Câncer?
- Pois é, eu sou pêssego, acabei
de inventar.
- Mas por que pêssego?
- Dentre as milhares de frutas
que conhecemos, desgustamos e desconhecemos o pêssego existe unicamente para o deleite do paladar e da
pronúncia. Existem sabores que se encontram e até se confudem. Se colocar uma
venda nos olhos e oferecer-te vários alimentos, entre eles , o pêssego se destacará. Não é qualquer fruta, não se
come no dia a dia...
- Eu nunca comi pêssego.
- Viu?!
- Hã?
- Porque você nunca comeu
pêssego?
- Porque nunca me interessei em
provar, nunca nem vi no supermercado.
- É bem por aí a questão, os
pêssegos não tem e nunca teve a pretensão de ser uma fruta conhecida como a
maça, a laranja ou a banana. Ela é fruta dos que sabem apreciar um paladar
diferenciado, daqueles que constroem uma trama para conhecer coisas diferentes.
Não que você não esteja apto a entrar nesse mundo, mas é ainda desconhecido.
Talvez como uma virgem deseja provar da primeira vez com todo o entusiasmo e a
mágica de esperar flores e vinho do outro. Se ela encontrar um pêssego não vai
se decepcionar, mas se escolher uma maçã podre irá amargar em sua boca, embora
a podridão também tenha seus encantos. E, talvez ela nem esteja afim de
pêssego, talvez queira mesmo a maça ou a banana. As pessoas fogem do pêssego
por medo do preço, por isso escolhem a maça e a banana por saber que o valor é
mais acessível.
- Agora você é uma mercadoria?
-Você entende de metáforas? É que
as vezes pareço estar em outra dimensão, com outro dialeto e vai que...
- Lembro de ter estudado isso
anos atrás, mas tá dando pra acompanhar mais ou menos, só não entendi... é pra comprar ou não o pêssego?
- Hummm, então... o preço do
pêssego é uma assimetria, é algo que embora seja caro seu valor é
inquestionável. Por isso sou o pêssego, não atendo ao chamado do comprador que
não está reparando no valor nutritivo de sua “compra”, que se vê ansioso pela degustação,
mas que procura nessa fruta a diferença, espera a oportunidade e sabe que não
encontrará no mercado tradicional.
- Então você está dizendo que é
uma fruta cara e só te compra quem tem dinheiro?
- Não literalmente, jumas!
- Jumas?
- Jume... esquece. Toma seu vinho
e vá para casa que já esta amanhecendo.
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