domingo, 11 de novembro de 2012

Os Estatutos do Homem (Thiago de Mello)


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


A Noite

Não consigo dormir.
Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.
Se pudesse, pediria a ela que fosse embora,
mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.
Arranque-me, senhora, as roupas e as dúvidas.
Dispa-me.
Eu adormeço às margens de uma mulher: eu adormeço às margens de um abismo.

GALEANO

L'homme révolté - Albert Camus


A Queda

É como génese da revolta que o  tem lugar e só nessa medida podemos compreender a revolta, os sentimentos que lhe estão na base e as consequências que dela advêm. Mas  por que motivo? Porqueacontece que os cenários desabam. Os gestos de levantar, o carro – eléctrico, quatro horas de escritório ou de fábrica, refeição, carro – eléctrico, quatro horas de trabalho, refeição, sono e segunda-feira, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, esta estrada segue-se com facilidade a maior parte do tempo. Só um dia o ‘porquê’ se levanta (…).i É este "porquê" que nos torna estranha toda a nossa cadeia de hábitos e é neste preciso momento que a nossa vida começa a ruir- este é o momento do absurdo, o qual não é mais do que a estranheza do mundo, o mal-estar que sentimos, a "náusea", como lhe chamou Sartre, sendo na morte que ele adquire toda a sua grandeza. A morte é o desconhecido, o inefável e mais do que nunca nos põe face a face com a pergunta pelo sentido, isto é, vale a pena ter esperança apesar de tudo ou é preciso matarmo-nos?
O ser humano tem uma sede desmesurada de absoluto; quer compreender o mundo, quer reduzi-lo a si mesmo, quer fazê-lo seu, só que entre o mundo e o homem há um grande divórcio. Não se trata de uma exclusão ,mas antes de uma presença comum de duas realidades que são mutuamente alheias e ininteligíveis.
Tanto de si como do mundo, o homem só conhece estilhaços, pedaços aqui e acolá que de forma alguma lhe proporcionarão um verdadeiro conhecimento. De nada servirão ao homem as mais perfeitas e acabadas teorias da ciência que perversamente tudo pensam explicar, quando nem de si próprio o homem tem certezas!
O divórcio, a distância que separa o desejo incomensurável de unidade e de clareza do mutismo do mundo, é o próprio absurdo. Esta falta de coincidência entre o homem e o mundo, entre o homem e a natureza, abre um fosso entre o homem e as forças que o rodeiam e o absurdo expressa precisamente esse momento em que "se quebra a aliança com as coisas". Ao mesmo tempo que é divórcio, o absurdo acaba por ser o único elo de ligação entre o próprio homem e o mundo. No entanto, isto não conduz ao desespero na medida em que agora não se trata de medir a vida em termos de ter ou não ter sentido, pois é precisamente o "não ter sentido" que confere à vida um sentido, ou seja, não ter sentido é o seu sentido. Sendo esta a única certeza do homem, trata-se de saber se é, e como é possível viver com o absurdo. Mas se o absurdo é essa tensão entre o mundo e o homem, há que condenar necessariamente o suicídio na medida em que este seria a eliminação de tal divórcio; eliminar um dos pólos desta dicotomia (mundo/homem) será eliminar o absurdo- é necessário, pois, que se mantenham numa tensão perpétua.
De facto, todo este universo de angústia, de impotência e, por outro lado, o desejo de unidade não são tão originais de Camus. Muitos filósofos e pensadores nossos conhecidos se familiarizaram com esta temática: Kierkegaard, por exemplo, mais do que descobrir o absurdo, viveu-o de uma forma desesperada; Jaspers defende o nada como única realidade e o desespero como única atitude; Heidegger afirma-nos uma existência humilhada…
Tanto Kierkegaard, como Jaspers ou Heidegger se situam num espaço onde não há lugar para a esperança, só que embora tenham partido, de facto, do universo do absurdo acabaram por divinizar tudo aquilo que os oprimia, encontrando, por fim, a esperança, esperança esta de ordem religiosa. Jaspers dá um "salto" e transforma o absurdo em Deus ao afirmar um sentimento supra – humano da vida. A partir do momento em que a noção de absurdo serve de "ponte para a eternidade", já não está de forma alguma ligada à lucidez humana . O "salto" para Deus é o próprio fim do absurdo enquanto tal. É necessário que não exista esperança- este é o pressuposto da luto entre o homem e o absurdo.
Penso que é importante ter aqui em linha de conta a dificuldade de Camus na sua relação com Deus; por uma lado a inegável presença da ideia de Deus e, por outro, o inegável sentimento da sua ausência.
Ainda em Kierkegaard, o desejo de clareza deve renunciar a si mesmo para encontrar satisfação e isto não é mais do que dizer ao homem absurdo que haverá um final em que todas as contradições não passarão de jogos, isto é, há também em Kierkegaaard lugar para a esperança. Por isto mesmo, o homem absurdo não é o de Kierkegaard, mas sim aquele que se mantém fiel ao absurdo -a evidência que o despertou do seu sono fastidioso e quotidiano.
Olhar o absurdo é fazê-lo viver, e fazer viver o absurdo é viver! Se é necessário que se viva esse absurdo, se é necessário que não nos afastemos dele, só há uma saída coerente: a revolta. Esta revolta não é mais, no fundo, do que a luta eterna entre o homem em si e a sua opacidade.

Do not Disturbe - Parte 2

Eu digo
que não cabe
mais em lugar algum
essa indecência
essa putrefação
essa insipidez
essa agonia
essa acidez

Tudo me foge ao raciocínio
mas eu simplesmente
não curto mais as mesmas coisas
não suporto mais as mesmas pessoas
A eterna repetição

Não tem mais samba
Não tem mais rock
Não tem mais música
Me nego a acreditar que isso tudo seja legítimo
É apenas uma eterna repetição

De acordes, de letras, de passos de dança
Não passa de um plano forjado pra nos entreter
Não cuspo no prato que comi, comi com a mão.

Não Sei [ o que eu quero]

Não que eu tenha muito pela frente
Não que eu vá morrer tão cedo
Não estou abrindo mão de nada
Não estou dizendo adeus
Mas, e se a vida for isso?

E se eu for embora e não disser tudo aquilo que considero importante?
Quem vai saber o que devia ter sido feito, além de mim?
Então ninguém sentirá realmente falta tanto quanto eu
E se eu não puser os pés pra fora para agir?!

Não quero sangrar até morrer,
Não quero jogar eternamente
Pensar até secar a alma
Quero parar de sentir sozinha
Quero as bengalas bem-vindas da vida


sábado, 10 de novembro de 2012

Geração "Lennonista"

"Se vestem como Tarzan,
tem cabelo de Jane,
mas cheiram como a Chita."
 - Ronald Reagan,
então governador da California.
Referindo-se aos hippies (1967)

"I hope i die before get  old"
- Peter Towshed, The Who,
My Generation (1967)


O conceito polêmico de geração é um conceito marxista. Mas não leninista, e sim lennonista.
Adeus, Lênin, bem vindo Lennon! O marxismo-leninismo morreu, viva o marxismo-lennonismo!
E falar em geração é falar em geração baby-boom . Aquela geração que nasceu no imediato pós-II Guerra (meados dos anos 1940, início dos 1950) e que hoje já passou pela experiência de poder em várias partes do mundo. E como professor baby-boomer, nascido em 1951, sempre digo orgulhoso aos meus alunos, até  com certa empáfia, que pertenço a uma geração a uma geração totalmente mais: mais alta, mais ousada, mais inteligente, mais revolucionária, mais criativa. E mais mentirosa também!...
A geração baby-boomer está ultrapassando a maturidade. Cantada nos versos de Pete Towshed, do The Who, - em My Generation (1967): "i hope  i die before i get old" (espero morrer antes de ficar velho), a geração dos que nasceram e se formaram no contexto da Guerra Fria, da aventura espacial, da revolução científica e tecnológica, da emergência do rock, da revolução sexual, da luta pelos direitos civis, e que puderam testemunhar ou ate participar ativamente , de transformações importantíssimas, que até hoje assustam conservadores de vários tons e ideologias.

Martin Cézar Feijó
Professor de Comunicação Comparada da FACOM-FAAP

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Associação Nacional de História (ANPUH) responde à crítica da Revista Veja sobre Hobsbawm


Em nota, entidade afirma que Veja teria reduzido historiador a um "idiota moral"
A nota de repúdio foi publicada no perfil da entidade no último sábado. Confira, na íntegra, o texto da Associação Nacional de História, que teve como título, "Hobsbawm: Um dos maiores intelectuais do século XX".
"Na última segunda-feira, dia 1 de outubro, faleceu o historiador inglês Eric Hobsbawm. Intelectual marxista, foi responsável por vasta obra a respeito da formação do capitalismo, do nascimento da classe operária, das culturas do mundo contemporâneo, bem como das perspectivas para o pensamento de esquerda no século XXI. Hobsbawm, com uma obra dotada de rigor, criatividade e profundo conhecimento empírico dos temas que tratava, formou gerações de intelectuais. Ao lado de E. P. Thompson e Christopher Hill liderou a geração de historiadores marxistas ingleses que superaram o doutrinarismo e a ortodoxia dominantes quando do apogeu do stalinismo. Deu voz aos homens e mulheres que sequer sabiam escrever. Que sequer imaginavam que, em suas greves, motins ou mesmo festas que organizavam, estavam a fazer História. Entendeu assim, o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista. Mas Hobsbawm não foi apenas um “acadêmico”, no sentido de reduzir sua ação aos limites da sala de aula ou da pesquisa documental. Fiel à tradição do “intelectual” como divulgador de opiniões, desde Émile Zola, Hobsbawm defendeu teses, assinou manifestos e escolheu um lado. Empenhou-se desta forma por um mundo que considerava mais justo, mais democrático e mais humano. Claro está que, autor de obra tão diversa, nem sempre se concordará com suas afirmações, suas teses ou perspectivas de futuro. Esse é o desiderato de todo homem formulador de ideias. Como disse Hegel, a importância de um homem deve ser medida pela importância por ele adquirida no tempo em que viveu. E não há duvidas que, eivado de contradições, Hobsbawm é um dos homens mais importantes do século XX.
Eis que, no entanto, a Revista Veja reduz o historiador à condição de “idiota moral” (cf. o texto “A imperdoável cegueira ideológica da Hobsbawm”, publicado em www.veja.abril.com.br). Trata-se de um julgamento barato e despropositado a respeito de um dos maiores intelectuais do século XX. Veja desconsidera a contradição que é inerente aos homens. E se esquece do compromisso de Hobsbawm com a democracia, inclusive quando da queda dos regimes soviéticos, de sua preocupação com a paz e com o pluralismo. A Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil) repudia veementemente o tratamento desrespeitoso, irresponsável e, sim, ideológico, deste cada vez mais desacreditado veículo de informação. O tratamento desrespeitoso é dado logo no início do texto “historiador esquerdista”, dito de forma pejorativa e completamente destituído de conteúdo. E é assim em toda a “análise” acerca do falecido historiador. Nós, historiadores, sabemos que os homens são lembrados com suas contradições, seus erros e seus acertos. Seguramente Hobsbawm será, inclusive, criticado por muitos de nós. E defendido por outros tantos. E ainda existirão aqueles que o verão como exemplo de um tempo dotado de ambiguidades, de certezas e dúvidas que se entrelaçam. Como historiador e como cidadão do mundo. Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela, Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada."
São Paulo, 05 de outubro de 2012
Diretoria da Associação Nacional de História
ANPUH-Brasil
Gestão 2011-2013